quinta-feira, 19 de junho de 2014

Lego - The Movie


Uma Aventura LEGO (The Lego Movie), 2014, de Phil Lord e Christopher Miller.

Ao ver algumas animações recentes baterem recordes e mais recordes de bilheteria, já estava temendo que a total falta de esforço em narrar boas histórias em favor de gags e mais gags intermináveis (ou momentos fofos ou canções ou mesmo "massaveísmo") tivesse imperado definitivamente. No entanto, Lego mostra que ainda há espaço para animações com boas e criativas histórias, capazes de proporcionar uma experiência rica e divertida, mesmo sem abrir mão de gags, momentos fofos, canções ou "massaveísmo". As muitas e muitas referências pops também são trabalhadas de modo bastante acertado, ao serem inseridas organicamente no contexto da história e não apenas vomitadas de maneira desconexa e artificial para satisfação de uma espécie de prazer solitário intelectual, tão comum em filmes candidatos a cult.

terça-feira, 6 de maio de 2014

Philip Marlowe no cinema Neo-Noir





The long goodbye (Um perigoso adeus), 1973, de Robert Altman, com Elliott Gould.

Farewell, my lovely (O último dos valentões), 1975, de Dick Richards, com Robert Mitchum.


Uma das principais distinções entre o cinema noir e o neo-noir está no fato deste último deliberadamente querer se aproximar do estilo, da temática e da atmosfera do ciclo de filmes de crime, em sua maioria de baixo orçamento, os chamados filmes B e mesmo os produzidos na poverty row, do início dos anos 40 e meados dos anos 50, que eram realizados sem uma exata consciência das características que posteriormente foram identificadas como pertencentes a tal ciclo.
The long goodbye possui claramente essa intenção neo-noir típica, porém, afasta-se do mero pastiche ou de estereótipos fáceis para de fato oferecer uma interpretação que dá nova vida ao personagem de Raymond Chandler em um contexto contemporâneo à época em que o filme foi realizado. Na soberba abertura (que acredito ter servido de inspiração para a abertura de The Big Lebowski), Elliott Gould entrega um Marlowe cínico e mordaz digno de um Humphrey Bogart (algo significativo numa época em que os ideais da geração paz e amor começavam a definhar), num delicioso monólogo que transita quase imperceptivelmente entre a narração em off e a fala sobreposta (bem diferente do tom irritante que Robert Montgomery emprestou à prosa afinada de Chandler com seu Marlowe em Lady in the Lake, 1947). O Marlowe de Gould pode ser bem menos durão (tough) que o Marlowe de Humphrey Bogart no clássico absoluto The big sleep, de 1946 (mas aí também já é covardia!), porém sabe como levar uma surra (episódio indispensável em uma aventura do detetive particular/private eye) tão estoicamente (e olha que é do Schwarzenegger que ele apanha!) quanto o de Dick Powell em Murder, my sweet (1944).
Farewell, my lovely (remake de Murder, my sweet), por outro lado, faz de certa forma o caminho inverso. O filme é ambientado na época original do romance (final dos anos 30), e procura reforçar, nas cores saturadas das luzes de neón e nas notas melancólicas do blues (elementos que, na verdade, são raros em filmes noir clássicos), como já se observa na belíssima abertura, as características essenciais que a recepção crítica percebeu retroativamente no cinema noir. O filme, portanto, é um epítome da forma pela qual o filme noir é ainda hoje percebido, da maneira com que tais filmes são conservados no imaginário crítico e cinéfilo. Entretanto, Farewell, my lovely faz isso de forma excelente, não se limitando a ser uma mera homenagem, mas uma obra que possui uma especificidade e uma intenção própria. Embora Robert Mitchum já estivesse velho demais para o papel (o que é bem explorado no filme), seu Marlowe cansado e amargurado é uma versão bastante interessante do personagem (o qual ele voltaria a interpretar na refilmagem de The big sleep, em 1978). E ele também mostra que aguenta uma bela surra (e aqui é do Stallone que Marlowe apanha!).

domingo, 12 de janeiro de 2014

O ano do dragão


O ano do Dragão (Year of the Dragon), 1985, de Michael Cimino.

Do mesmo diretor de "O franco atirador" (The deer hunter, 1978, indicado a 9 oscars e ganhador de 4, incluindo melhor filme e melhor ator coadjuvante para Christopher Walken), “O ano do Dragão” me parece bem mais regular do que o primeiro (que possui um início tão chato quanto o de “Pearl Harbor”). Com Mickey Rourke, então no seu auge, o filme possui muitas similaridades com o excelente “Chuva negra”, 1989, não só pelo embate entre ocidente e oriente, mas por mostrar uma juventude asiática “corrompida” pela influência ocidental buscando tomar o lugar dos mais velhos pelo uso de extrema violência e com total desprezo por antigas tradições; além disso, ambos os filmes trazem algo que sinto falta na maioria dos filmes policiais atuais: o desenvolvimento de uma rixa pessoal entre herói e vilão; o momento em que o vilão “passa dos limites”, forçando o herói a iniciar uma cruzada por vingança.

sábado, 4 de janeiro de 2014

Piteco - Ingá


A arte de Shiko está deslumbrante, as cores estão lindas, e a história está bem bacana e divertida, bastante aventuresca. Adorei as heroínas, a Thuga e a Ogra, e a importância dada ao papel delas. Muito legal o elemento fantástico na história e a releitura de algumas lendas do nosso folclore. Que bom seria se mais e mais artistas nacionais tivessem seu espaço com trabalhos autorais nas grandes editoras. Ansioso pelos próximos projetos Graphic MSP.

Do Além


Do Além (From Beyond), de Stuart Gordon, 1986.

Pensei que se tratava de uma divertida tranqueira com ótimos efeitos visuais e de maquiagem que retratam metamorfoses e degradações corporais - e é, na verdade, - mas vai "além" disso, com o perdão do trocadilho. É uma adaptação bem acertada do conto de Lovecraft (Stuart Gordon também dirigiu Re-Animator, 1985, uma outra adaptação do pai da moderna literatura de horror). Apesar da produção módica e do desenvolvimento, inicialmente, singelo da trama, o filme (sem o humor de Re-Animator) consegue transmitir bem a atmosfera lovecraftiana e se aprofundar de modo instigante na mitologia criada pelo autor, introduzindo de maneira bem interessante elementos ausentes no conto: a sexualidade e sensualidade, que, quanto mais se ocultam em Lovecraft, mais poderosamente se impõem.

Ryan Gosling em dose dupla


Só Deus perdoa (Only God forgives), de Nicolas Winding Refn.

O lugar onde tudo termina (The Place Beyond the Pines), de Derek Cianfrance.

Cada cena de "Only god forgives" é um quadro pronto para se pendurar na parede. Tudo é ritualizado, cada enquadramento, composição e movimento são "friamente calculados"; tudo vai ficando “em suspenso”, o passo, a fala, o olhar, a respiração (inclusive do expectador) - o tempo, o espaço: é um deslumbre! Mas é um "filme doente", ou seja, um filme que tinha tudo para ser uma obra prima, não fosse algo mais... aquele elemento essencial que pudesse lhe conferir uma "alma". Acabou resultando, para mim, muito mais num exercício estilístico (dos que valem a pena conferir, contudo). O filme teria, ironicamente, muito mais substância e profundidade, “alma”, se o diretor abrisse mão de todo o presunçoso surrealismo que ele tenta canhestramente dar conta e deixasse com quem sabe fazê-lo... com Jodorowsky, por exemplo, a quem ele dedica o filme. 

O lugar onde tudo termina é um dramalhão, só que dos bons. Gostei do começo, mas fiquei fulo com o meio do filme e parei de ver, porém, por recomendação do meu tio, que adorou o filme, retomei, e, de fato, o filme continua muito bom até o final. 

O ator tailandês Vithaya Pansringarm rouba a cena em Only god forgives.

Vale lembrar que Ryan Gosling já havia trabalhado tanto com Nicolas Winding Refn, em Drive, que acho bacana, quanto com Derek Cianfrance, em Blue Valentine, que ainda não tive muito interesse de ver porque me parece uma chatice sem tamanho, ainda mais pelo título no Brasil: Namorados para sempre, embora seja um filme bem cotado.

Inimigos




Inferno no Pacífico (Hell in the Pacific), 1968, de John Boorman, com Lee Marvin e Toshirô Mifune.


Inimigo Meu (Enemy Mine), 1985, de Wolfgang Petersen, com Dennis Quaid e Louis Gossett Jr.

Dois filmaços que narram praticamente a mesma história. Há quem diga que Inimigo meu é um “rip-off” de Inferno no Pacífico, a inspiração pelo menos me parece clara, com a grande diferença, porém, de que este último possui um tom muito mais sombrio e amargo, com uma edição com cortes abruptos que deixa o espectador ainda mais desamparado, principalmente quando o final brusco e inclemente chega. Duas obras magistrais que nos fazem refletir de maneira formidável sobre as noções de “amigo” e “inimigo”, de “próximo” e “estrangeiro”.

Obs.: Inferno no Pacífico possui um final alternativo lançado em dvd. O final ao qual me referi é o original de cinema, que acho bem mais impactante, justamente por seu caráter mais ambíguo.

Noah


Primeiro número de Noah, graphic novel que Darren Aronofsky escreveu (com desenhos de Ari Handel) meio que para vender sua ideia do filme Noé para os estúdios. 
Achei esse primeiro número (serão 4) bem legal, fiquei surpreso na verdade: pelo trailer do filme, não pensei que as liberdades que Aronofsky pudesse vir a tomar com relação ao livro de Gênesis fossem dignas de qualquer polêmica, mas, se o que está na hq for mesmo adaptado para as telas, então, realmente, a indignação de alguns segmentos religiosos para com o filme tem lá seus motivos para dizer o mínimo. Pelo visto, as teorias de Erich von Däniken vão continuar influenciando o cinema - e eu acho isso ótimo porque fica bastante divertido quando bem feito! Fiquei muito mais empolgado para ver o filme!
No geral, gostei da arte de Ari Handel, entretanto, algumas vezes, parece que ele desenhou com muita pressa. Achei curioso que o firmamento que ele desenha parece pertencer a um outro planeta, não sei se a intenção é justamente essa, ou se ele precisava pesquisar um pouquinho de astronomia. O cenário da hq me remeteu muito a Conan, o que é bem bacana.

Bare behind bars



Quem diria que um dos melhores WiPs (women in prision) já feitos é brasileiro?!
Bare behind bars (A Prisão, 1980) é um produto de exportação feito sob medida (na Boca do Lixo) para o mercado grindhouse norte-americano (a única cópia que encontrei está dublada em inglês). O filme tem tudo o que o subgênero exige: lesbianismo, tortura, humilhação, crueldade, banhos coletivos, catfights, tentativas de fuga e muita violência; uma diretora sádica, carcereiras abusivas, uma enfermeira ninfomaníaca e uma boa dose de sexo explícito fecham o pacote. Os atos cometidos pelas três protagonistas após a fuga provam como o cinema apelativo consegue ser transgressor como nenhum outro.

sábado, 26 de outubro de 2013

Sob o domínio do medo


Sob o domínio do medo (Straw Dogs), 1971, de Sam Peckinpah.

Sam Peckinpah é uma das maiores influências de Tarantino. O título do primeiro longa do mais famoso geek de filmes, Reservoir Dogs (Cães de aluguel), é uma alusão aos filmes “Au revoir les enfants” (uma brincadeira com o fato do diretor não saber pronunciar o nome do filme quando trabalhava em locadora, referindo-se a ele como “the reservoir movie’”) e “Straw Dogs” (Sob o domínio do medo), ou seja, ao cinema autoral francês da nouvelle vague e à ultraviolência do cinema exploitation que Peckinpah conduzia com maestria. “Sob domínio do medo” pode causar uma certa estranheza inicial: uma montagem bem inusitada, meio truncada e entrecortada (própria do cinema de Peckinpah); o comportamento dos personagens é imprevisível, inesperado, meio absurdo às vezes (principalmente na cena de estupro, em que ficamos indignados, mas não pelo motivo que esperaríamos). Mas, ao final, é isso que torna o filme magnífico, e, na verdade, quase hiper-realista de um modo inesperado e bem pouco usual, como uma romance de Kafka.